terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Rondó da mulher só


Achei interessante quando li este texto, escrito, na verdade, por um homem no papel de uma mulher. Ainda estou na dúvida se concordo ou não com o argumento, mas isso não importa. O que importa é que eu parei para pensar no assunto, o que já justifica o post de hoje:


"Estou só, quer dizer, tenho ódio ao amor que terei pelo desconhecido que está a caminho, um homem cujo rosto e cuja voz desconheço.
Sempre estive duramente acorrentada a essa fatalidade, amor. Muito antes que o homem surja em nossa vida, sentimos fisicamente que somos servas de uma doação infinita de corpo e alma.
O homem é apenas o copo que recebe o nosso veneno, o nosso conteúdo de amor. Não é por isso que o homem me atemoriza, quando aqui estou outra vez, só, em meu quarto: o que me arrepia de temor é este amor invisível e brutal como um príncipe.
Quando se fala em mulher livre, estremeço. Livre como o bêbado que repete o mesmo caminho de sua fulgurante agonia.
A uma mulher não se pergunta: que farás agora da tua liberdade? A nossa interrogação é uma só e muito mais perturbadora: que farei agora do meu amor? Que farei deste amor informe como a nuvem e pesado como a pedra? Que farei deste amor que me esvazia e vai remoendo a cor e o sentido das coisas como um ácido? É terrível o horror de amar sem amor como as feras enjauladas.
É quando o homem desaparece de minha vida que sinto a selvageria do amor feminino. Somos todas selvagens: são inúteis as fantasias que vestimos para o grande baile. Selvagem era a romana que ficava em casa e tecia; selvagens eram as mulheres do harém, as mais depravadas e as mais pudicas; selvagem, furiosamente selvagem, foi a mulher na sombra da Idade Média, na sua mordaça de castidade; mesmo as santas - e Santa Teresa de Ávila foi a mais feminina de todas - fizeram da pureza e do amor divino um ato de ferocidade, como a pantera que salta inocente sobre a gazela. E selvagem sou eu sob a aparência sadia do biquíni, olhando a mecânica erótica de olhos abertos, instruída e elucidada. Pois não é na voluntariedade do sexo que está a selvageria da mulher, mas em nosso amor profundo e incontrolável como loucura. O sexo é simples: é a certeza de que existe um ponto de partida. Mas o amor é complicado: a incerteza sobre um ponto de chegada.
Aqui estou, só no meu quarto, sem amor, como um espelho que aguarda o retorno da imagem humana. O resto em torno é incompreensível. O homem sem rosto, sem voz, sem pensamento, está a caminho. Estou colocada nesse caminho como uma armadilha infalível. Só que a presa não é ele - o homem que se aproxima - mas sou eu mesma, o meu amor, a minha alma. Sou eu mesma, a mulher, a vítima das minhas armadilhas. Sou sempre eu mesma que me aprisiono quando me faço a mulher que espera um homem, o homem. Caímos sempre em nossas armadilhas. Até as prostitutas falham nos seus propósitos, incapazes de impedir que o comércio se deixe corromper pelo amor. Quantas mulheres traçaram seus esquemas com fria e bela isenção e acabaram penando de amor pelo velhote que esperavam depenar. Somos irremediavelmente líquidas e tomamos as formas das vasilhas que nos contêm. O pior agora é que o vaso está a caminho e não sei se é taça de cristal, cântaro clássico, xícara singela, canecão de cerveja. Qualquer que seja a sua forma, depois de algum tempo serei derramada no chão. Os vasos têm muitas formas e andam todos eles à procura de uma bebida lendária.
Li num autor (um pouco menos idiota do que os outros, quando falam sobre nós) que o drama da mulher é ter de adaptar-se às teorias que os homens criam sobre ela. Certo. Quando a mulher neurótica por todos os poros acaba no divã do analista, aconteceu simplesmente o seguinte: ela se perdeu e não soube como ser diante do homem; a figura que deveria ter assumido se fez imprecisa.
Para esse escritor, desde que existem homens no mundo, há inúmeras teorias masculinas sobre a mulher ideal. Certo. A matrona foi inventada de acordo com as idéias de propriedade dos romanos. Como a mulher de César deve estar acima de qualquer suspeita, muito docilmente a mulher de César passou a comportar-se acima de qualquer suspeita. Os Dantes queriam Beatrizes castas e intocáveis, e as Beatrizes castas e intocáveis surgiram em horda. A Renascença descobriu a mulher culta, e as renascentistas moderninhas meteram a cara nos irrespiráveis alfarrábios. O romancista do século passado inventou a mulherzinha infantil, e a mulherzinha infantil veio logo pipilando.
O tipos vão sendo criados indefinidamente. Médicos produzem enfermeiras eficientes e incisivas como instrumentos. Homens de negócios produzem secretárias capazes e discretas. As prostitutas correspondem ao padrão secreto de muitos homens. Assim somos. Indiquem-nos o modelo, que o seguiremos à risca. Querem uma esposa amantíssima - seremos a esposa amantíssima. Se a moda é mulher sexy, por que não serei a mulher sexy? Cada uma de nós pode satisfazer qualquer especificação do mercado masculino.
Seremos umas bobocas? Não. Os homens são uns bobocas. O homem é que insiste em ver em cada uma de nós - não a mulher, a mulher em estado puro ou selvagem, um ser humano do sexo feminino - o diabo, a vagabunda, a lasciva, o anjo, a companheira, a simpática, a inteligente, o busto, o sexo, a perna, a esportista... Por que exige de nós todos os papéis, menos o papel de mulher? Por que não descobre, depois de tanto tempo, que somos simplesmente seres humanos carregados de eletricidade feminina?"


(Paulo Mendes Campos)

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Good Jesus!


Em Bom Jesus há mais de uma semana, só agora encontrei um CD com o melhor de Tom Jobim, presente de um ex-namorado no Natal de alguns anos atrás. Quanto bom gosto pra quem só tinha... o quê? uns 18, 19 anos na época?

Neste momento, ouço "As águas de Março". Demais, demais! Vontade de voltar pra Niterói... saudade de alguém que ficou por lá.

Bossa Nova é mesmo um estilo terapêutico. Se você está triste, das duas uma: ou fica feliz ouvindo ou fica mais triste, só que de um jeito sutil, charmoso, apaixonado... Melhor assim do que a tristeza a seco, sem música.

Esta cidade tem dessas coisas. Sempre encontro uns objetos, CDs, livros, fotos, coisas pelas quais andava procurando sem saber. E quando encontro, sinto que já está na hora de voltar pra Niterói. O trabalho está feito: visitei a família e os amigos e me lembrei de quem eu era quando vivia aqui. Sem surpresa nenhuma, descubro que continuo a mesma, talvez um pouco melhor, mas isso é pensar positivo... meu lado Pollyana.

Está tocando Wave agora, só instrumental... Linda!

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Trilha sonora


Para fugir do barulho das businas, do som ensurdecedor das ambulâncias e dos carros de polícia, quem vive na cidade grande, mais do que qualquer um, precisa de música. O interior (ainda) conta com o som dos pássaros e das corujas, coisas que acalmam. Lá, o barulho mesmo é suportável e até bonito, como o sino da Igreja, a carroça passando pelos paralelepípedos e o rádio na casa da minha avó...

Um dia, durante mais um papo animado com minhas amigas de sotaque puxado como o meu, pensamos em várias músicas que, de alguma forma, marcam a vida por aqui, em nossa nova casa, longe de casa. Muitas falam de amor, mas é que essas são as melhores. Tomei a liberdade de acrescentar algumas. Seguem abaixo com os nomes de seus intérpretes e/ou compositores:


- "Num apartamento perdido na cidade, alguém está tentando acreditar que as coisas vão melhorar ultimamente... " ('Lá vou eu', afinal quem mais iria por mim?, Zélia Duncan)
- "I can get no satisfaction, I can't get no satisfaction... 'Cause I try, and I try, and I try, and I try... I can't get nooooo satisfaction!" ('Satisfaction', não podia faltar, Rolling Stones)
- "They've tried to make me go to rehab, but I said no no no." ('Rehab', só porque dizer 'ninguém me tira daqui' é muito bom, Amy Winehouse)
- "I should just be my own best friend, not fuck myself in the head with stupid men." ('Tears dry on theis own', e o que toda garota deve pensar em algum momento da vida, Amy Winehouse)
- "Eu sei que ela nunca compreendeu os meus motivos de sair de lá, mas ela sabe que depois que cresce o filho vira passarinho e quer voar. Eu bem queria continuar ali, mas o destino quis me contrariar, e o olhar de minha mãe na porta eu deixei chorando a me abençoar." ('O dia em que eu saí de casa', segundo meus amigos cariocas, essa música tem a minha cara, por quê será?, Zezé di Camargo e Luciano)
- "E eu,com a cara mais lavada, digo: por quê não?" ('Por que não eu?', todo mundo já quis saber um dia, Leoni e Hebert Viana)
- "Garotos, perto de uma mulher, são só garotos." ('Garotos II - O outro lado', é ou não é verdade?, Leoni)
- "Quem dera ser um peixe, para em seu límpido aquário mergulhar, fazer borbulhas de amor pra te encantar, passar a noite em claro dentro de ti." ('Borbulhas de amor', cantando sem noção no apartamento, Fagner)
- "Você está saindo da minha vida e parece que vai demorar." ('Na sua estante', demora mesmo..., Pitty)
- "Depoi de pensar um pouco, ela viu que não havia mais motivo, nem razão e pôde perdoá-lo." ('A minha gratidão é uma pessoa', perdoar sem que tenham te pedido não faz só bem, faz melhor..., Nando Reis)
- "Estranho seria se eu não me apaixonasse por você." ('All-star azul', realmente seria muito estranho..., Nando Reis)
- "Faz parte do meu show, faz parte do meu show, meu amor..." ('Faz parte do meu show', em homenagem aos showzinhos de cada um, Cazuza)
- "Deu mole pra caramba, tremendo vacilão, tá todo arrependido, vai comer na minha mão. Pensou que era o cara, mas não é bem assim, agora baba bobo, vai correr atrás de mim." ('Tremendo vacilão', noitadas 2006, Perla)
- "Todo meu tempo, todo meu zelo, todo meu prédio já sabe que eu tenho um amor." ('Sempre te quis', não é lindo?, Os Paralamas do Sucesso)
- "Se tudo tem que terminar assim, que pelo menos seja até o fim, pra gente não ter nunca mais que terminar." ('Caleidoscópio', com certeza, porque terminar é muito chato, Os Paralamas do Sucesso)
- "Vamos fugir desse lugar, baby. Ahhh vamos fugir..." ('Vamos fugir', porque tem hora que dá muita vontade..., Gilberto Gil)





Se eu lembrar de mais músicas, vou colocando aqui. Aceito sugestões!


Boa semana para todos!

sábado, 22 de novembro de 2008

O fim de semana chuvoso


Nada como um fim de semana chuvoso para lembrar uma mulher de que ela está, de fato, solteira. Quando o dia está quente e ensolarado, sempre aparece uma prainha com as amigas, um churrasco ou uma noitada, o suficiente para deixá-la mais do que satisfeita com sua condição de pessoa livre e desempedida.

Mas e quando chove? Não tem jeito, bate aquela vontade de alugar um filme e de abraçar alguém, como me relatou hoje uma amiga durante um lanchinho no meio da tarde nublada e fria, assim como nossas expectativas em relação à noite de sábado.

Eu mesma não estava tão preocupada assim. Meus pais vieram me visitar e, como acontece sempre que passamos o fim de semana juntos, saímos para jantar: meus pais, minha irmã e o meu cunhado. O evento familiar mais freqüente e importante para mim. Nesses dias, dificilmente sinto falta de um namorado, mas é assim que acontece quando a gente tem a melhor família do mundo. E quando a gente tem os melhores amigos também.

Existe hora pra tudo: pra namorar, pra ir à caça, pra estudar ou trabalhar, pra ir até o "chão chão chão", pra cantar bêbado e pra pular na piscina no fim da festa. Mas também existe aquela hora, não menos divertida ou necessária, de abrir o sofá-cama da sala e assistir Zorra Total (por quê não?), ao lado daqueles que, talvez em um sábado à noite chuvoso e frio, resolveram fazer você, ou que acidentalmente acabaram fazendo. No final das contas, o fim de semana com chuva pode ser mesmo algo inspirador.

Enquanto houver família, a que nos criou e a que nós escolhemos, quem precisa de sol (ou de namorado) para animar o fim de semana?


Enjoy your sunday, como se ele fosse mesmo um sorvete com calda e castanhas...

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Herdeiros do Cinismo


Se já existem, há algum tempo, os Paralamas do Sucesso e os Engenheiros do Havaí, muito me surpreende a ausência no mercado dos Herdeiros do Cinismo.

A falta está mesmo só na indústria fonográfica, porque no dia-a-dia essa espécie de gente se esbarra aos montes pelas ruas. Pensei no nome dessa nova banda, repleta de integrantes potencais, durante um jantar com uma amiga. Estávamos falando de amores passados, quando lembrei de Cartola:

"De cada amor tu herderás só o cinismo."

É triste e até cômico assumir, tamanha a ironia. Quer dizer, então, que vivemos ao lado de alguém durante muito tempo e, depois, quando tudo termina, somos obrigados a fingir que está tudo bem?

A boa notícia é que podemos sim fingir que estamos bem até que tudo, de fato, fique bem. Por mais idiota que pareça, isso ajuda a passar o tempo com alguma irreverência. É nessa hora que vestimos a camisa dos jovens solteiros e desesperados: Enquanto não encontramos a pessoa certa, nos divertimos com as erradas. Nada mais burro, nada mais necessário.

A má notícia é que o tal cinismo pode perdurar pelo resto da vida. Eu disse resto da vida? De forma menos trágica, ele pode, apenas, se estender por mais tempo do que deveria. Eu disse apenas?

Quando isso acontece, corremos o sério risco de oferecer menos de nós para uma nova relação e de também esperar menos. Mas eu não acho que no amor deva haver economias. Opinão à parte, vejo que, após o fim do "nós" e o começo do cinismo, tendemos a separar as coisas: o amor, a amizade e o sexo. De repente, não mais que de repente, o bom e velho conceito de namorado não consegue reunir essas três coisas. É quando nos tornamos cínicos e paramos de acreditar no romance. Passamos a fazer piada sobre ele e, apesar do potencial benéfico de rir das próprias dificuldades, não há nada de engraçado em perder a esperança.

Eu deveria terminar esse texto com uma espirituosa solução para o problema. Só se eu inventasse, mas acho que isso não ajudaria ninguém, muito menos a mim. Odeio deixar que o público cante sozinho o refrão, mas é que esqueci a letra ou nunca soube. Prometo não guardar segredo quando descobrir o que fazer, por enquanto, sou mais uma cínica querendo se regenerar, como o resto da banda...




"You know I love you so..."

Realmente...


São Paulo é tudo o que dizem sobre ela. Se eu fosse uma cidade, também ia querer ter nome de Santo. Só eles entendem de grandeza...

Já ouvi alguns dizerem que São Paulo "engole" todo mundo, mas comigo foi o contrário: parece que essa cidade me expandiu.

Pretendo voltar logo, quem sabe morar lá. E, pelo menos, dar ao meu filho um nome de Santo. Para quem veio de Bom Jesus do Itabapoana, tudo a ver uma cidade e um filho com nomes de pessoas que entendem de fé; por sinal, algo que tem feito falta ultimamente.

O céu é cinza, mas poderia ficar mais claro se uns e outros andassem menos de carro e mais de bicicleta, ônibus e metrô. Melhor ainda, só se o Governo ampliasse a rede e a infra-estrutura para o transporte coletivo, não só lá, como em todas as grandes cidades. Será que torcer por isso já é ter fé demais?


Aprendi com e em São Paulo: Fé nunca é demais.


O caos não é o atrativo da cidade grande e nem precisa ser inerente a ela.

São Paulo me fez bem e olha que nem cruzei a "Ipiranga" com a "São João", como imaginei que fosse fazer, igualzinho ao que acontece na música do Caetano Veloso, "Sampa". Preciso ser sincera, como não andei por essas ruas, não vale a pena publicar a letra da canção aqui, apesar de ter assim prometido no post anterior. A verdade é que não tive tempo, o que já faz de mim uma paulistana em potencial. Fica, então, de desculpa para viajar de novo. Dessa vez, sem relógio.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Sampa!


Vou conhecer São Paulo na semana que vem. Queria escrever alguma coisa sobre isso, mas não sei por onde começar. E quando a gente não sabe o que dizer, a gente canta. Tem sempre um música para cada ocasião, sempre acreditei nisso. Mas até a música que conheço sobre São Paulo só vai fazer sentido depois que eu colocar os pés na cidade. Mais uma para o blog. Acho que começo um novo amor...



"Alguma coisa acontece no meu coração." Por enquanto, é só essa parte que faz algum sentido. Rio de Janeiro, não se preocupe. Você ainda é o meu favorito!